Trem
Trilhos seguem sem alternativa para melhorar o trânsito em momentos de bloqueio
Problema antigo em Pelotas atinge, principalmente, moradores do bairro Simões Lopes
Jô Folha -
Desde 1884, a Estrada de Ferro de Rio Grande-Bagé faz parte da paisagem das regiões Sul e da Campanha. Com pouco mais de 302 quilômetros, os trilhos que ligam o Pampa gaúcho ao litoral Sul já carregaram muitos passageiros - até 1986, segundo dados do governo do Estado - e hoje são restritos a cargas que saem do campo para o Porto do Rio Grande. No meio deste caminho, eles cruzam a zona urbana de Pelotas, transformando o charme do passado em um transtorno, principalmente para os moradores do bairro Simões Lopes.
Nos três turnos do dia, os vagões cortam a cidade, cruzando as principais vias que ligam parte do Fragata e do Simões ao Centro, sendo elas as ruas Saturnino de Brito, Tiradentes e Lobo da Costa, onde, justamente, fica a área de manobra dos trens, próxima à antiga Estação Férrea de Pelotas. No local é possível que trens vindos de direções opostas façam a ultrapassagem para seguir em pista única. É quando ocorre o principal entrave no trânsito. Um trem com sentido Bagé-Rio Grande, por exemplo, precisa parar na área de manobra para esperar que um trem que esteja em andamento no mesmo horário, no sentido contrário, o ultrapasse no local definido, evitando assim uma colisão entre eles. É nessa parada que os vagões acabam atrapalhando a vida dos pelotenses.
Dependendo do número de vagões, o mesmo trem pode vir a ser uma barreira nas ruas citadas, impedindo a passagem de veículos e pedestres. Professora aposentada e moradora do bairro Simões Lopes há 50 anos, Maria Terezinha da Rosa conta que a intercorrência com os trens sempre fez parte da sua rotina. "É sempre no horário de pico, às vezes eu desisto e volto, às vezes espero. E isso ocorre há anos, eu era professora e tinha que pular para não me atrasar. Já pulei muitas vezes", conta a idosa, que aguardava o trem voltar a andar para liberar a passagem na rua Saturnino de Brito.
Neste cruzamento, a reportagem do DP flagrou ambos os trens de sentidos opostos parados, impedindo a travessia também na rua Lobo da Costa. Inclusive, para retornar ao Centro, a equipe precisou fazer o que muitos moradores da região fazem: se deslocar até a rua Frederico Bastos para fazer o contorno pela avenida Duque de Caxias.
"Tem que fazer a volta por lá [Fragata], eles não respeitam ninguém, sem contar que esse trem aqui dentro é um perigo, já pegou carro atravessado aqui. Teve há uns anos um rapaz que foi pular o trem, caiu e cortou as duas pernas. Já aconteceu de tudo aqui nessa passada. O que já teve de acidente nesses cruzamentos, as vidas que eles já tiraram aqui nesse cruzamento, já era para estar há muito tempo fora da cidade", reclama um morador que preferiu não se identificar.
Questionado sobre viabilidades que a prefeitura possa ter tentado com a empresa responsável pela linha, a Rumo Logística, o secretário de Transporte e Trânsito, Flavio Al Alam afirma que, há um ano, um acordo foi feito para evitar o trancamento das vias. Um estudo de mobilidade foi apresentado. "Após um acordo, eles [a Rumo] reorganizaram a malha ferroviária para evitar trancamento nos cruzamentos, [desde então] não temos recebido reclamações de longas esperas", comenta.
Apesar do acordo, o morador que não quis se identificar destaca que o combinado só é feito se há fiscalização dos agentes de Trânsito. "Eles estavam fazendo isso antes, que veio os azuizinhos, aí e eles desengatavam e deixavam passar. Mas agora não fazem mais, ficam ali e trancam tudo", conta.
De acordo com o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável de Pelotas, feito em junho de 2019 pela prefeitura, com cooperação técnica da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), as soluções para equacionar ou minimizar o problema seriam as construções de novo desvio em outras áreas da cidade e de um viaduto sobre a ferrovia, na rua Saturnino de Brito, sendo esta a menos indicada. Um contorno urbano também é apontado para Pelotas, entretanto exigiria a construção de uma outra ponte ferroviária móvel sobre o canal São Gonçalo.
Sobre uma possível transposição da linha para fora da zona urbana, Al Alam alega ser um sonho. "A prefeitura pretende retomar o assunto com a empresa, este seria o nosso sonho, mas acredito que seja muito difícil", destaca.
O que diz a empresa
Em nota enviada à reportagem do Diário Popular, a Rumo Logística afirma que as "equipes do Centro de Controle de Operações (CCO) da empresa monitoram a movimentação de trens para que o tempo acordado com o município para transposição nas passagens em nível (PNs) seja respeitado, com o objetivo de causar o menor impacto possível à população. Com relação às obras de alteração de traçado ou de infraestrutura ferroviária, pelo modelo de concessão ferroviária, a Companhia esclarece que elas são de responsabilidade e interesse do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT)".
O Jornal tentou contato com DNIT, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno.
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